5 jun. 2011

Solários em Madri

Aviso de antemão que esta crônica contém altas doses de romantismo e de crença nas mudanças. Se ambas as coisas incomodam aos leitores, pois não a leiam. Não considero o romantismo algo negativo. Inclusive o movimento romântico literário sempre esteve vinculado a profundos questionamentos sociais e políticos. O problema está nos usos e abusos que fizeram deste termo e o que ele significa. Romantismo não é piegas nem água com açúcar. Inclusive o lado escuro do romântico pode ser bem duro.




Vivo na Espana há 5 anos. A atual crise econômica assola este país como nunca. O desemprego cresce, os jovens não acreditam no futuro, muitos espanhóis estão imigrando ou pensando em imigrar à Alemanha, à França, ao Brasil. Tivemos eleições municipais e estaduais e o partido da dieita ganhou massivamente. Um horror. As pessoas estão perdidas. Descrentes do governo que se diz socialista e sem ter pra onde correr em um sistema eleitoral que não deixa opções.


Mas em algum momento a coisa explode. E explodiu. Foi do dia 15 de março. Neste fim de semana fui ver de perto o que estava acompanhando pela mídia. Ontem estive na Puerta del Sol, praça principal da cidade em termos geográficos, financeiros e comerciais. A Puerta hoje é palco e foco de um dos movimentos populares mais importantes dos últimos tempos na Espanha, e talvez devemos ousar dizer na Europa. Depois da “primavera árabe”, o “15M” (com referência ao dia 15 de março, quando um grupo de manifestantes enfrentou a repressão na Puerta del Sol) é uma prova de que o povo, em algum momento, acorda.

Aparentemente é um movimento independente. Mas conversando com um recente amigo que pertence a um partido trotskista daqui, o Izquierda Anticapitalista, soube que não é o espontaneísmo que manda. Há muitas organizações de base que organizam as comissões de trabalho e houve antedecentes em outros movimentos anteriores até chegar nesse momento. Realmente há grupos independentes, e é muito bom que haja, também esses grupos vão aprendendo e organizando-se no dia a dia da comuna de Sol.




Ao sair do metrô Sol já me deparei com as pixações de palavras de ordem nas paredes das escadas. O movimento, que já tem várias semanas, começa a perder a força inicial, os participantes estão cansados, mais desgastados e há menos quantidade de gente. Entretanto, o que eu pensava que seria “uma meia dúzia de gatos pingados” não é tão “meia dúzia” assim. Estive no “Circulo de silencio” contra as leis de imigração. Algo que me atinge diretamente na essência, por ser imigrante; mesmo que não na prática, pois não sofri, ainda, nenhuma retaliação por causa das tais leis. Também participei da assembleia popular e presenciei em dois dias atos muito emocionantes.

É preciso dizer que não é um movimento da juventude somente. Há idosos, aposentados, imigrantes de todas as idades. Nas assembleias e nos atos juntam-se pessoas que não estão acampadas, algumas que passam por ali e outras que vão especialmente para participar. A assembleia foi de uma organização e uma ordem invejáveis. Silêncio durante as intervenções, respeito às divergências, tradução constante à lingua de sinais. Prioridade aos mais velhos. Uma beleza.


Há problemas? Claro que sim. Ouvimos rumores de conflitos e abusos por parte de alguns grupos com relação às companheiras. Foi denunciado em uma das assembleias. Não sejamos ingênuos. Nos movimentos e partidos de esquerda sempre há tais desvios graves. Os vícios do capitalismo nos acompanham, e o machismo é uma praga dessas. Por isso nas organizações sérias há comissões de controle e outros mecanismos. Denunciar na assembleia, que é soberana, e buscar as soluções, é o que se deve fazer. Não esconder que os problemas existem. Também há grupos que não pertencem ao movimento inicial, e não compartilham os mesmos ideais. E o lumpesinato também está por ali. Cabe aos companheiros saberem levar bem, daqui em diante, o que foi construído. É possível que o acampamento se dissolva nas próximas semanas. Mas a essência, o que foi lançado ali como semente, devia poder germinar nos bairros, nas escolas, nas empresas, nas fábricas, nas universidades.



Os solários citados no título deste texto eram os habitantes da cidade ideal imaginada em Civitas solis, por Tommaso Campanella. Hoje eles estão em Madri. E meu coração, que já foi trosko e que sempre será de luta, ficou sorrindo naquela praça...

“O povo ao poder
(Castro Alves)


Quando nas praças s’eleva
Do Povo a sublime voz…
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz…


Que o gigante da calçada
De pé sobre a barrica
Desgrenhado, enorme, nu
Em Roma é catão ou Mário,


É Jesus sobre o Cálvario,
É Garibaldi ou Kosshut.
A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor


É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor!
[…]”


Feminismo nas fachadas:



"No botellón" - Refere-se às festas da juventude, organizadas nas praças pra beber cerveja, vinho com coca-cola, etc. O movimento da Puerta del Sol quer deixar claro que, desta vez, não se trata disso.


Cartazes no "Círculo de Silencio", contra as leis injustas de imigração:



"Si esto es inmoral" (un homem negro humilhando um policial branco).
"¿Por qué esto no lo es?" (Un policial branco humilhando um imigrante árabe)

Cartazes no acampamento e nos andaimes do Corte inglés, um dos maiores impérios comerciais na Europa:

"Continue ou não o acampamento, cresce o movimento":

"Bem-vindos" nas línguas oficiais da Espanha (Euskera, catalão, galego e castelhano):