1 feb. 2009

Obama é o bicho

Pode ser que minhas impressões estejam matizadas pela esperança e a vontade de mudança. Eu sei. Provavelmente vou me arrepender e decepcionar, como todos nós, dentro de alguns meses. Ele não é nenhum Jesus Cristo (ainda que sua entrada no Capitólio no dia da posse tenha sido montada com um que de Jesus em Jerusalém, ou não? Só faltavam os ramos). Mas hoje, por enquanto pelo menos, eu digo que Obama é o bicho. Estamos todos doidos com esse negão. E não é para menos (além de tudo ele é charmosérrimo, mas isso são outros quinhentos).

Na solenidade de posse o apresentador pronunciou todo o nome e os sobrenomes de Bush, e curiosamente omitiu o Hussein de Obama. Mas ele não. Fez questão, no juramento, de dizer seu nome tão temido. Detalhes? Pode ser, mas não passou desapercebido. Gosto do jeito que ele tem de não esconder o que é óbvio. Descende de árabes. E ponto. E isso é um grande trunfo, se ele souber usar, e creio que tem sim inteligência para isso.

Pode ser piegas, mas me emocionei, e não tenho vergonha de contar, quando ele disse mais ou menos essas palavras: “um homem cujo pai, há 60 anos, não seria servido em um restaurante, agora está diante de vocês para prestar o juramento mais sagrado. [...] O sonho de Martin Luther King se cumpriu porque o filho desse homem hoje é o presidente dos Estados Unidos. E isso é assim porque todos somos iguais, todos somos livres e merecemos a oportunidade de conseguir a felicidade total.”

Sei que o tom é muito messiânico. Sei que não somos, nem nunca seremos, todos iguais e livres dentro do capitalismo. Mas mesmo assim, o fato de ser negra, e de estar morando longe e cheia de saudade do meu pai negro, (que também viu muitas portas fechadas ao longo da sua vida), a lembrança das palavras de minha mãe branca não me escondendo a verdade, desde pequena, de que eu teria que provar que era melhor duas vezes em tudo, só por ser negra; me fez sentir emoção e um certo gosto bom de justiça, ao ouvir as palavras de Obama.

Há uns dois dias o negão deu sua primeira entrevista em cadeia televisiva como presidente. E não foi para o New York Times, mas para Al Arabya, canal com base em Dubai. Tudo bem, pode ser estratégia política, E É, não tenho dúvidas. Mas ele supreende. Disse Obama: “sou descente de árabes, vivi vários anos da minha vida em um país mulsumano. Quero dizer aos mulsumanos que os EUA não são inimigos e aos norte-americanos que entre os árabes há pessoas maravilhosas que só querem o melhor para seus filhos.”

Sabemos que em muitos aspectos os EUA são sim inimigos. Então é demagogia? Provavelmente. Mas e daí? Ele tem elementos que, juntos, nenhum outro presidente dos Estados Unidos tinha, tem a experiência real de vida. É negro, decendente de árabes, protestante (será que canta bem? Aí já seria demais!).

Ele é diferente, gente, ninguém pode negar. Até o Saramago sabe. Só a coragem desse homem em começar a dizer (e tão rápido) todo o contrário do que se disse até agora me impressiona. No primeiro dia de governo assinou o fechamento de Guantánamo. No segundo lançou um decreto contra a poluição pelos automóveis. Tudo muito rápido. Até assusta um pouco.

Ele é muito inteligente, repito, e se conseguir continuar dizendo o que diz, e sobretudo fazendo o que diz... que Deus o proteja e lhe dê guarda-costas perfeitos.



Madrid, 01 de fevereiro de 2008

Bethania Guerra